Música e conhecimento celebram o Dia da Consciência Negra

Concerto realizado na UFSCar (Foto: Beatriz Rezende-FAI/UFSCar, Stela Martins – AECR/UFSCar)
Texto: Fabricio Mazocco/CCS UFSCar

Na noite da quarta-feira, 21 de novembro, o público lotou o Teatro Universitário Florestan Fernandes para prestigiar o concerto da USP-Filarmônica (Orquestra da Universidade de São Paulo), que preparou um programa especial para a data, Dia da Consciência Negra – 20 de novembro.
Na abertura do evento no Teatro, a Reitora da UFSCar, Wanda Hoffmann, e o Pró-Reitor de Extensão, Roberto Ferrari Júnior, deram as boas-vindas ao público presente. “Para nós, é um privilégio termos hoje essa apresentação na comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra e também fechando as comemorações dos 65 anos da Escola de Engenharia de São Carlos [EESC-USP], nossa parceira neste evento. A UFSCar vê com muita alegria este momento. A Universidade tem um intenso trabalho de resgate da história africana e afro-brasileira. Ela também atua de forma intensa no combate à discriminação e ao preconceito”, disse a Reitora. O Diretor da EESC, Paulo Sérgio Varoto, destacou o trabalho desenvolvido pelo maestro e pelos músicos da Filarmônica. “Temos aqui um exemplo genuíno dos pilares da universidade pública brasileira: o ensino, a pesquisa, a cultura e a extensão junto com a interação com a comunidade”.
O concerto foi dividido em duas partes. A primeira foi dedicada especificamente ao Dia da Consciência Negra, com a execução da obra de um compositor do período colonial, José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), filho de escrava e que se tornou mestre-de-capela da Real Câmara e Capela de João VI. A música escolhida foi a “Sinfonia Fúnebre”, composta por Garcia na sua juventude, em 1790, e considerada a principal obra sinfônica do Brasil do século XVIII. “É uma composição original, ousada, com um estilo muito próprio”, descreveu o maestro Ricciardi.
Também nesta parte, foram apresentadas músicas novas compostas por Olivier Toni (1926-2017) e pelo próprio Ricciardi, com trechos do poema de Castro Alves (1847-1871), “O Navio Negreiro”, um dos mais conhecidos da literatura brasileira e o mais representativo sobre a escravidão, que descreve a situação dos africanos tirados de suas terras e de suas famílias, para serem propriedades de grandes fazendeiros.
Já na segunda parte, foram executadas obras de Johann Sebastian Bach (1685-1750) e Joaquín Rodrigo Vidre (1901-1999). Além dos músicos da Filarmônica, o concerto contou com a participação de Jean William (tenor, ex-aluno da Escola de Comunicações e Artes – ECA-USP), Carla Rincon (violinista venezuelana), Fátima Graça Monteiro Corvisier (pianista, professora da FFCLRP) e Gustavo Silveira Costa (violonista, professor da FFCLRP).
No período da tarde, o maestro da Filarmônica, Rubens Russomanno Ricciardi, professor titular do Departamento de Música da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCLRP) da USP em Ribeirão Preto, ministrou uma palestra em que abordou o negro e a música no Brasil.
Conhecimento
“O negro e a música no Brasil, desde os batuques coloniais até o surgimento do samba” foi o tema da palestra ministrada por Ricciardi no Auditório 1 da Biblioteca Comunitária (BCo) da UFSCar, no período da tarde. “O principal objetivo da palestra foi o de valorizar as importantes contribuições dos negros para toda atividade musical que houve, especificamente, do período colonial até o final do Império”, explicou o maestro.
O professor falou também dos elementos atrelados à tradição africana e que se perderam ao longo dos tempos, não sendo possível reconstruir essa sonoridade. “É uma produção musical importante e irreconstituível em termos artísticos”. Ainda segundo Ricciardi, essa atividade musical era proibida tanto no Brasil como em Portugal. “Eram proibições oficiais, reais e reeditadas por governadores”, afirmou ele.
Com essa repressão, os instrumentos feitos naquela época se perderam. “Os negros não trouxeram nenhum instrumento nos navios negreiros. Alguns, depois, eram feitos com expertise africana, utilizando matéria-prima brasileira. Eles chegavam aqui e reproduziam de forma artesanal, como faziam na África. Estamos falando de uma tradição interrompida”, detalhou o Maestro, citando que os instrumentos de percussão conhecidos hoje são militares e de orquestras.
Na palestra, Ricciardi refez o percurso da história da música ligada aos negros até chegar ao samba. Ele revelou os fatos históricos que deram início ao samba, ao falar de um poema do Júlio Ribeiro, que descreve uma roda de candomblé e elementos do samba dentro da mitologia africana. Segundo ele, este poema inspirou o primeiro samba da história que é de autoria do paulistano Alexandre Levy (1864-1892).
As atividades em comemoração ao Dia da Consciência Negra e dos 65 anos da EESC foram uma parceria entre a UFSCar e a USP. Pela UFSCar, a realização contou com a participação da Coordenadoria de Cultura (CCult), da Pró-Reitoria de Extensão (ProEx) e da Reitoria.

 

 

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