Primeiros profissionais indígenas formados na UFSCar contam os caminhos percorridos até agora e comentam as perspectivas para o futuro

Em março de 2013, formaram-se os dois primeiros estudantes indígenas da UFSCar, que ingressaram na Universidade através do Programa de Ações Afirmativas da Universidade. Agenor Custódio Terena e Edinaldo Xucuru do Orubá concluíram a graduação nos cursos de Imagem e Som e Psicologia, respectivamente. Seis meses após a formatura, durante o I Encontro Nacional dos Estudantes Indígenas, realizado na UFSCar, o Blog da Reitoria conversou com os dois profissionais, e eles contaram o caminho percorrido até a chegada à Universidade; as dificuldades e conquistas durante o período da graduação; e as atividades desenvolvidas e perspectivas para a vida profissional.

Edinaldo Xucuru do Orubá registra o momento em que recebeu o diploma de psicólogo junto com o Reitor da UFSCar, Targino de Araújo Filho (Foto: Acervo pessoal)

Edinaldo Xucuru do Orubá atuaria, a princípio, somente na articulação para incentivar outros indígenas de sua comunidade a estudar na UFSCar e, também, para viabilizar a ida dos futuros estudantes até os campi da Universidade. “Chegar até a UFSCar não foi um caminho fácil. Eu trabalhava como agente de saúde em Pernambuco, e recebi a missão de divulgar o Vestibular Indígena da UFSCar na minha comunidade. Aos poucos, fui me convencendo a ir para a Universidade também, conforme fui sendo incentivado, amadurecendo a ideia, e a possibilidade de recursos para a ida foi se concretizando”, explica.

No ano em que participou do processo seletivo para ingressar na UFSCar, Edinaldo completava 10 anos da conclusão do Ensino Médio, e conta que voltar a estudar depois de tanto tempo não foi uma tarefa simples. Junto com os colegas, organizou um grupo de estudos para se prepararem para o vestibular. A opção pelo curso de Psicologia surgiu da vontade de trabalhar com a saúde mental indígena em sua comunidade. Antes de chegar à UFSCar, como agente de saúde, o agora psicólogo já estava envolvido com essas questões, o que foi ponto de partida para a opção pelo curso. “Sempre pensei muito na questão da identidade dos indígenas, que convivem com enfrentamentos e preconceitos e, muitas vezes, chegam a negar a própria identidade. Vejo que trabalhar essas questões pelo viés da Saúde Mental é muito importante para enfrentá-las. Ainda temos uma política de Saúde Indígena que provê apenas o atendimento ambulatorial, e não uma política de fato integrada e que dê conta de resolver a complexidade dos problemas. Eu percebi que, se quisesse transformar essa realidade, teria de começar de algum lugar.”

A carência de psicólogos indígenas no Brasil e as trajetórias acadêmica e profissional de Edinaldo chamaram a atenção do Conselho Regional de Psicologia do Estado de São Paulo, bem como do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, que viraram seus parceiros. Logo após a formatura, Edinaldo foi convidado para trabalhar em seu Estado de origem, Pernambuco, na área de Saúde Mental Indígena. “Agora eu atuo como psicólogo na área técnica de Saúde Mental, no Distrito Especial de Saúde Indígena de Pernambuco. É uma área com 46 mil indígenas de 10 etnias, e eu sou o único psicólogo indígena. Ainda temos muitas dificuldades, principalmente no acesso à Saúde, e também nesse processo de construção de uma política de Saúde que respeite os saberes indígenas e ofereça a formação voltada para a comunidade”, conta.

Já Agenor Custódio Terena estava concluindo o Ensino Médio quanto foi informado pela direção de sua escola sobre o Programa de Ações Afirmativas recém implementado na UFSCar. Ele conta que teve receio de se afastar da família e de trocar o Mato Grosso do Sul por São Paulo, mas o apoio de sua mãe o motivou a estudar. A opção por cursar Imagem e Som veio do desejo de ver os indígenas protagonizando a divulgação de sua cultura e saberes e, assim, ter voz nas discussões que dizem respeito ao seu povo. “A escolha por Imagem e Som surgiu do meu incômodo com a relação entre a mídia e as comunidades indígenas. As pessoas usam as imagens do nosso povo sem pedir permissão e da forma que bem entendem. Eu queria ajudar na divulgação da nossa cultura, mas pelos nossos olhos”, explica Agenor.

Ele ressalta os obstáculos que precisou transpor por fazer parte da primeira turma de estudantes indígenas na UFSCar e o aprendizado, tanto pessoal quanto da própria Universidade, nessa convivência. “Enfrentei uma série de dificuldades ao chegar na UFSCar, coisas que os indígenas que chegam agora não precisam mais enfrentar. Fazer parte da primeira turma nos fez quebrar algumas barreiras. Eu pensei que chegaria aqui e encontraria tudo resolvido, mas não foi bem assim. Tive problemas para conseguir vaga na moradia, porque muitos estudantes não estavam abertos a conviver com indígenas. Eles me falavam que não havia vaga nos apartamentos, mas um não indígena conseguia vaga lá. Apesar dessas dificuldades, conseguimos abrir caminhos para os próximos indígenas que chegaram aqui e não tiveram de passar pelos mesmos problemas que nós passamos”, conta.

Agenor avalia que a convivência entre os indígenas e os não indígenas é fundamental para que seja possível entender as diferenças entre os povos e eliminar as visões equivocadas que ainda prevalecem nas cabeças das pessoas. “Muita gente ainda me pergunta, por exemplo, se nas aldeias nós vivemos pelados, e eu explico que não, que usamos roupas comuns, e as pessoas vão aprendendo. Aprendem também que os indígenas são diferentes entre si, que uma aldeia não é igual à outra, que temos modos de vida diferentes. Se eu fosse viver em uma aldeia de outra etnia, por exemplo, eu teria de me adaptar. E nesse tempo na Universidade eu também aprendi bastante, me interessei muito pela área de Educação. O convívio com os não indígenas me ensinou a valorizar ainda mais a nossa cultura e a entender o que a nossa comunidade precisa. Apesar dos problemas, o companheirismo dos meus colegas de sala foi muito forte e muito importante para a minha estadia aqui na UFSCar.”

Agenor trabalha no projeto “Daniel Munduruku… E Outras Gentes”, do SESC de Ribeirão Preto, que homenageia o escritor indígena Daniel Munduruku com a exibição de vídeos e leituras para crianças. Ele conta que pretende continuar estudando e trabalhando na divulgação de sua cultura, para transformar a relação da grande mídia com os povos indígenas. “Agora eu quero estudar mais, para contar para as pessoas o movimento do meu povo, falar sobre a demarcação de terras e sobre as negociações políticas, nas quais não temos voz. Quando vemos na televisão os casos de violência contra os indígenas, ninguém sabe dizer de onde veio. Nós criticamos muito os grandes meios de comunicação, que estão claramente ao lado do poder. Quero escrever e divulgar a história do meu povo, e estou me encontrando, buscando os caminhos para fazê-lo. Em vez de reforçar a opressão, da forma que a mídia já faz, quero divulgar a nossa história, mostrar o que meu povo vive, porque eu acredito que isso pode conscientizar as pessoas.”

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